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📌 “Este blog integra o ecossistema: Museu de Filatelia Sérgio Pedro: Estudos, peças raras, maximafilia, marcofilia e história postal.

sábado, 24 de outubro de 2026

Postal Máximo Tio Patinhas – Disney


Tio Patinhas de cartola e bengala, junto de um símbolo de dólar de grandes dimensões, sobre fundo verde.

Selo: Portugal, 53$00, Tio Patinhas, Disney, 18.10.2001.

Postal: Nuova Arti Grafiche Ricordi, n.º 202969, © Disney, impresso em Itália, s.d.

Obliteração: Portimão, 23.10.2001, comemorativa da «Portimão 2001 – VI Exposição Nacional Filatélica Juvenil», com representação do Tio Patinhas.

Concordância: Tio Patinhas no selo, no postal e no carimbo.


sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Entre a História Postal e a Arqueologia Industrial: Estudo de um Cartão Comercial da Companhia de Moagem Farense (c. 1932-1940)

 

Bilhete postal antigo cor-de-rosa com ilustração da Fábrica da Companhia de Moagem Farense, mostrando o edifício industrial, uma chaminé alta e um moinho de vento ao fundo.

No vasto universo da cartofilia e do colecionismo de ephemera, são frequentemente os documentos mais utilitários, produzidos para circulação corrente e não para preservação, aqueles que melhor documentam o quotidiano económico e social de uma região. O propósito desta breve nota é partilhar a análise material de um interessante cartão de correspondência comercial da Companhia de Moagem Farense, cuja reduzida presença na bibliografia especializada justifica uma observação mais atenta.

Na literatura de referência, nomeadamente na obra de José Manuel da Silva Passos, O Bilhete Postal Ilustrado e a História Urbana do Algarve (Editorial Caminho, 1995), o exemplar encontra-se inventariado sob o registo n.º 294. O autor classificou-o como uma «Fototipia» e atribuiu-lhe uma cronologia genérica do século XX [19...]. Contudo, a observação pormenorizada do objeto permite hoje propor uma leitura técnica mais precisa, tanto do seu processo de impressão como do seu enquadramento histórico.

Delimitação Cronológica e Contexto Empresarial

A legenda impressa identifica claramente o edifício representado como sendo a «Fábrica da Companhia de Moagem Farense». Sabe-se que esta sociedade industrial iniciou a sua atividade em Faro no ano de 1932, fornecendo assim um importante terminus post quem para a produção do cartão.

Embora não disponhamos de elementos que permitam estabelecer uma data exata de impressão, os dados atualmente conhecidos sugerem uma produção enquadrável entre a década de 1930 e os primeiros anos da década de 1940. Trata-se de um período particularmente relevante para a industrialização algarvia, marcado pela expansão das unidades moageiras, pela crescente mecanização dos processos produtivos e pela utilização intensiva da correspondência comercial como instrumento de gestão e comunicação empresarial.

Ao contrário dos inteiros postais emitidos pela Administração Postal, este documento não possui qualquer franquia impressa, configurando-se tecnicamente como um cartão de fórmula comercial privada. Apesar da designação «BILHETE POSTAL» impressa no anverso e da existência das linhas regulamentares destinadas ao endereço, o remetente deveria afixar um selo postal móvel no espaço reservado para o efeito.

Estamos, portanto, perante um objeto híbrido, situado na fronteira entre a comunicação postal, a publicidade empresarial e a documentação comercial.

Um Instrumento de Comunicação Corporativa

Para além da sua função postal, o cartão desempenhava igualmente uma função promocional. A imagem da fábrica ocupava a zona central do anverso, transformando cada expedição numa oportunidade de projeção pública da empresa.

Deste modo, cada envio funcionava simultaneamente como veículo de comunicação administrativa e como elemento de afirmação institucional da Companhia de Moagem Farense. A própria representação iconográfica das instalações industriais procurava transmitir uma imagem de modernidade, capacidade produtiva e solidez empresarial, valores particularmente importantes num contexto económico marcado pela crescente competição industrial.

Sob esta perspetiva, o cartão constitui também um testemunho precoce das estratégias de identidade corporativa desenvolvidas pelas empresas algarvias da primeira metade do século XX.

Análise Gráfica e Técnica de Impressão

Um dos aspetos mais relevantes da peça reside no seu processo gráfico.

A observação ampliada da imagem revela uma retícula regular de pontos de meio-tom distribuídos geometricamente sobre toda a área ilustrada. Os diferentes níveis de sombra são obtidos através da variação da dimensão e concentração desses pontos, característica típica dos processos fotomecânicos industriais da época.

Esta evidência permite afastar, com elevado grau de confiança, a hipótese de estarmos perante uma verdadeira fototipia ou colotipia tradicional. A fototipia caracteriza-se habitualmente pela ausência de retícula mecânica visível e pela presença de tonalidades contínuas obtidas através de uma superfície gelificada sensibilizada.

Pelo contrário, o padrão observado neste exemplar é claramente compatível com uma impressão autotípica de meio-tom (halftone), processo largamente utilizado na impressão comercial portuguesa entre as décadas de 1920 e 1940.

A revisão desta classificação constitui, provavelmente, o principal contributo técnico que esta peça pode oferecer para o seu estudo e catalogação futura.


O Suporte e a Economia de Produção

O suporte utilizado apresenta características compatíveis com uma cartolina económica não revestida, de tonalidade pardo-rosada e acabamento relativamente simples.

A observação visual permite identificar:

  • elevada porosidade das fibras;
  • ausência de revestimento superficial;
  • reduzida opacidade;
  • boa transmissão de luz em transparência;
  • espessura moderada compatível com uso postal corrente.

Estas características sugerem uma escolha orientada por critérios de funcionalidade e racionalização de custos, mais do que por preocupações estéticas ou de conservação a longo prazo.

A relativa transparência observada contra a luz confirma igualmente a reduzida espessura do suporte e evidencia uma camada de tinta pouco espessa, típica de impressões comerciais destinadas a circulação massiva.

Embora não seja possível determinar a motivação exata da empresa, a escolha deste tipo de cartolina é compatível com as necessidades de uma correspondência comercial produzida em quantidade significativa, na qual os custos de impressão e expedição assumiam particular relevância.

Aspetos Materiais e Estado de Conservação

A observação do suporte revela ainda pequenas inclusões escuras dispersas na massa do papel. Estas partículas poderão corresponder a impurezas residuais do processo de fabrico da pasta ou a elementos vegetais não totalmente removidos durante o branqueamento, situação relativamente comum em papéis económicos produzidos durante a primeira metade do século XX.

A análise em transparência não revelou filigranas nem marcas de água identificáveis. Em contrapartida, permite observar diversos microfuros de reduzidas dimensões distribuídos irregularmente pela superfície.

Estes vestígios são compatíveis com danos biológicos antigos associados ao armazenamento prolongado do papel, embora a identificação exata do agente responsável exija exame microscópico especializado.

Longe de constituírem apenas uma alteração física do suporte, estas marcas documentam também a história material do objeto e os ambientes de conservação pelos quais passou ao longo de várias décadas.


Um Documento para a História Postal e Industrial Algarvia

O interesse deste cartão ultrapassa claramente a mera vertente colecionista.

Enquanto fórmula postal privada, testemunha a utilização de suportes ilustrados pelas empresas algarvias para fins de correspondência comercial. Enquanto documento iconográfico, preserva uma representação contemporânea de uma unidade industrial que desempenhou um papel importante na economia regional. Enquanto objeto material, conserva evidências dos processos gráficos, das opções produtivas e dos próprios mecanismos de circulação documental do seu tempo.

A recente transformação urbanística do antigo complexo industrial da Moagem Farense confere ainda maior relevância a este testemunho gráfico. Num contexto em que muitos vestígios materiais da industrialização algarvia desapareceram ou foram profundamente alterados, documentos efémeros como este assumem um valor crescente para a reconstrução da memória económica e tecnológica regional.

Considerações Finais

Mais do que fornecer conclusões definitivas, esta análise pretende contribuir para o conhecimento de um testemunho pouco estudado da cultura material algarvia.

Os elementos observados permitem propor uma cronologia centrada nas décadas de 1930 e 1940, reinterpretar o processo de impressão anteriormente identificado como fototipia e valorizar o cartão enquanto documento simultaneamente postal, comercial e industrial.

Fica, por isso, o convite aos colecionadores, investigadores e estudiosos da história postal algarvia para partilharem exemplares semelhantes, documentação empresarial ou peças circuladas que possam aprofundar o conhecimento sobre a utilização destas fórmulas comerciais privadas e sobre o papel da Companhia de Moagem Farense na rede de comunicações e negócios do Algarve do século XX.


quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Postal Máximo Búzio – Fauna marinha e gastronomia algarvia

 

Composição gastronómica com um búzio em destaque, sob a inscrição «O Algarve à Sua Mesa».

Selo: Portugal – Madeira, 0,61 €, «Fauna Marinha da Madeira – Búzio», 17.04.2007.

Postal: «O Algarve à Sua Mesa», sem indicação de editor, s.d.

Obliteração: Marca de dia de Portimão, de 25.05.2010.

Concordância: Búzio no selo e no postal, associado neste à gastronomia algarvia

sábado, 17 de outubro de 2026

Postal Máximo Correio Escolar - Portimão

 


Composição de letras brancas sobre faixas coloridas, com a inscrição «Correio Escolar».

Selo: Portugal, «Correio Escolar», indicação de porte «N 20 g», 09.10.2006.

Postal: CTT Correios, BPC-407, «Correio Escolar», design do Atelier Sofia Lucas, s.d.

Obliteração: Marca de dia de Portimão, de 25.05.2010.

Concordância: Tipografia e inscrição comuns ao selo e ao postal, com marca de dia de Portimão

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Booklet de Selos Personalizados Símbolos Benfiquistas (2026)


Esta caderneta de selos personalizados dos CTT dedicada aos Símbolos benfiquistas, com imagens do antigo estádio, o autocarro da equipa, a águia e os adeptos — constitui apenas parte de um universo mais amplo que reflete a identidade, a história e o espírito coletivo do clube, a caderneta tem seis selos autoadesivos de tarifa E20g (para correio normal Europa até 20g). Este artigo de filatelia é um produto oficial da Warner Bros. e tem validade postal garantida até 31 de dezembro de 2028.

 

sábado, 15 de agosto de 2026

Acervo e Ensaio — Museu de Filatelia Sérgio Pedro: Contramarca LOUZÃ 1827 numa carta de Penacova de 1830 PT-CC-1830-CBR-LIS-FH

Acervo e Ensaio — Museu de Filatelia Sérgio Pedro: Carta Pré-Filatélica de Penacova para Lisboa sobre...:  
Pormenor do suporte documental mostrando a contramarca "LOUZÃ 1827" em papel verjurado manual utilizado na redação de uma carta pré-filatélica expedida de Penacova para Lisboa em 1830. A marca encontra-se visível em luz transmitida, entre os pontuseus do molde papeleiro, e corresponde a uma identificação nominal associada à tradição papeleira da Lousã. A sobreposição da escrita manuscrita evidencia que a contramarca integra o próprio papel da missiva, constituindo um elemento de autenticação material e cronológica do documento.

No colecionismo documental, a atenção centra-se frequentemente no texto, nos carimbos, nos selos ou nos protagonistas da correspondência. Contudo, por vezes, é o próprio papel que guarda informações fundamentais para a compreensão histórica de uma peça.

Durante o estudo de uma carta manuscrita expedida de Penacova em 21 de julho de 1830, integrada no acervo do Museu de Filatelia Sérgio Pedro, foi realizada uma análise do suporte em luz transmitida. O exame permitiu observar uma contramarca anteriormente não referida na ficha de catalogação publicada no blogue Acervo e Ensaio.

A investigação confirmou a presença da inscrição:

LOUZÃ 1827

Esta marca constitui uma contramarca nominal datada, incorporada no próprio processo de fabrico do papel. A descoberta adquire especial interesse porque permite relacionar o documento com a tradição papeleira da região da Lousã, um dos mais importantes centros de produção de papel em Portugal durante os séculos XVIII e XIX.

A identificação foi reforçada através da comparação com exemplares catalogados por Maria José Ferreira dos Santos na obra Marcas de Água em Papéis Portugueses (2015), onde surge registada uma marca semelhante, LOUZÃ 1824, demonstrando a utilização deste tipo de contramarcas pela indústria papeleira local.

Do ponto de vista histórico, a marca confirma também a coerência cronológica do documento. Um papel fabricado em 1827 poderia perfeitamente permanecer armazenado durante alguns anos antes de ser utilizado na redação da carta, datada de 1830.

Esta observação recorda a importância da análise material dos documentos históricos. Muitas vezes, informações decisivas para o conhecimento da proveniência, da datação e dos circuitos de produção permanecem invisíveis até serem utilizadas técnicas simples de observação, como a luz transmitida.

Mais do que um suporte para a escrita, o papel é também um documento histórico. Neste caso, a descoberta da contramarca LOUZÃ 1827 acrescenta uma nova camada de conhecimento a uma peça já conhecida do acervo, demonstrando que os documentos ainda podem revelar surpresas quase duzentos anos depois da sua criação. 

sexta-feira, 31 de julho de 2026

Navios e Capitães do Comércio Atlântico Britânico: A Correspondência de Newton & Gordon entre Londres, Madeira e Jamaica (1766–1790)

Entre os documentos estudados recentemente pelo Museu de Filatelia Sérgio Pedro, destaca-se um conjunto notável de cartas comerciais dirigidas à firma Newton & Gordon e, mais tarde, Newton, Gordon & Johnson, estabelecida na Ilha da Madeira. Estas peças permitem identificar alguns dos navios que integravam as redes comerciais britânicas do Atlântico durante a segunda metade do século XVIII, revelando não apenas rotas marítimas, mas também relações de confiança, crédito, abastecimento e transporte de vinho da Madeira.

Mais do que simples embarcações, estes navios constituem testemunhos das ligações permanentes entre a Grã-Bretanha, a Madeira e as Caraíbas, num período em que o vinho madeirense era um dos produtos mais prestigiados do comércio atlântico.

Thames (1766)

O mais antigo dos navios atualmente identificados é o Thames, comandado pelo Capitão Laird. Numa carta enviada por Murison & Atkinson para Newton & Gordon, os correspondentes apresentam o capitão à firma madeirense e solicitam o embarque de vinho da Madeira e citron destinados a diversos clientes na Jamaica.

A documentação permite identificar uma rota comercial que ligava Londres, Madeira e Jamaica, demonstrando o papel da Madeira como escala estratégica no grande circuito atlântico britânico.

Countess of Galloway (1785)

Em 1785 surge o navio Countess of Galloway, comandado pelo Capitão Alexander Simson. Através de uma carta de apresentação enviada pela firma londrina Rae & Buchannan, Newton Gordon & Johnston são convidados a prestar assistência ao capitão durante a sua escala na Madeira para aquisição de vinho. A operação era acompanhada por uma garantia financeira até ao valor de 200 libras esterlinas, evidenciando a confiança existente entre as casas comerciais envolvidas.

A documentação demonstra igualmente a importância da Madeira como porto de abastecimento para embarcações em viagem para a Jamaica.

Mary Ann (1790)



O Mary Ann, sob o comando do Capitão Seton, aparece numa carta de John Shackleford dirigida a Newton, Gordon & Johnson. A correspondência indica que a própria carta seria transportada pelo capitão, ilustrando uma prática muito comum do período: o transporte privado de correspondência comercial através de comandantes de navios mercantes. 

Este sistema permitia uma circulação relativamente rápida e segura de instruções comerciais, encomendas e informações financeiras entre os diversos pólos do comércio atlântico.

Alexander (1790)

O navio Alexander surge referido na mesma correspondência de 1790, associado à expedição de vinho da Madeira e às ligações comerciais com a Jamaica e a Inglaterra. A documentação menciona igualmente os capitães Shaw e Cleaveland, relacionados com o transporte das mercadorias.

Embora a identificação definitiva desta embarcação permaneça em investigação, a sua presença nos documentos confirma a intensidade das ligações marítimas mantidas pela firma Newton, Gordon & Johnson.

Uma rede atlântica centrada na Madeira

Considerados em conjunto, estes documentos permitem reconstituir uma verdadeira rede marítima e comercial que tinha na Madeira um dos seus principais centros de operações. As cartas revelam navios, capitães, comerciantes, créditos, encomendas e circuitos de distribuição que ligavam portos britânicos aos mercados coloniais das Caraíbas.

O Thames, o Countess of Galloway, o Mary Ann e o Alexander são, assim, muito mais do que simples nomes registados em antigas cartas comerciais. São testemunhos concretos de uma época em que o vinho da Madeira, o comércio marítimo e a correspondência mercantil contribuíam para construir uma das mais importantes redes económicas do mundo atlântico.

Súmula dos navios identificados na correspondência dirigida à firma Newton & Gordon / Newton, Gordon & Johnson

As cartas estudadas pelo Museu de Filatelia Sérgio Pedro durante julho de 2026 permitem identificar vários navios diretamente associados às redes comerciais que ligavam a Grã-Bretanha, a Madeira e as Caraíbas no século XVIII. Embora nem sempre seja possível reconstruir integralmente os respetivos percursos, os documentos fornecem evidências valiosas sobre o seu papel no comércio atlântico.

1. Navio Thames (1766)

O Thames surge como o mais antigo navio identificado nesta série documental. A carta de Murison & Atkinson informa explicitamente que seria entregue por "Capt. Laird of the Thames" e contém instruções para o embarque de vinho da Madeira e citron destinados a diversos clientes na Jamaica. A rota documentalmente comprovada é:

Londres → Madeira → Jamaica (Kingston e Savanna-la-Mar).

O documento demonstra o papel da Madeira como entreposto de abastecimento integrado no comércio colonial britânico.

2. Navio Countess of Galloway (1785)

Esta embarcação é identificada numa carta de recomendação comercial enviada por Rae & Buchannan para Newton Gordon & Johnston. Os remetentes apresentam o capitão Alexander Simson e solicitam apoio para a aquisição de vinho da Madeira, garantindo ainda pagamentos até ao valor de 200 libras esterlinas. 

O documento demonstra que o navio se encontrava em viagem para a Jamaica e pretendia escalar a Madeira para abastecimento de vinho, reforçando a importância da ilha no comércio atlântico britânico.

3. Navio Mary Ann (1790)

O Mary Ann, comandado pelo capitão Seton, é referido por John Shackleford na carta enviada a Newton, Gordon & Johnson. A correspondência indica que a carta seguiria por intermédio deste comandante, constituindo um exemplo clássico de transporte privado de correio mercantil fora dos circuitos postais oficiais.

4. Navio Alexander (1790)

O Alexander é mencionado juntamente com os capitães Shaw e Cleaveland no contexto da expedição de vinhos da Madeira destinados à Jamaica e ao posterior comércio com Inglaterra. O estudo do Museu destaca que a identificação definitiva desta embarcação continua em aberto e que serão necessários trabalhos adicionais para determinar se se trata do mesmo navio referido noutras fontes madeirenses contemporâneas.

Consideração histórica

Tomadas em conjunto, estas referências revelam uma rede marítima recorrente entre:

Grã-Bretanha → Madeira → Jamaica

na qual a firma Newton & Gordon (e posteriormente Newton, Gordon & Johnson) desempenhava funções centrais de receção de correspondência, fornecimento de vinho, coordenação logística e apoio comercial aos navios britânicos em trânsito pelo Atlântico. As cartas identificam não apenas embarcações e capitães, mas também mecanismos de crédito, abastecimento marítimo e comércio internacional do Vinho da Madeira durante a segunda metade do século XVIII.

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Emissão Caixa Geral de Depósitos 150 anos - Pagela

 

Lisboa, 10 de abril de 2026 — A Caixa Geral de Depósitos (CGD) celebrou o seu 150.º aniversário, assinalando um século e meio de história intimamente ligada à vida dos portugueses e ao desenvolvimento económico e social do país.
Fundada em 1876, a instituição financeira tem pautado o seu percurso pela promoção de hábitos financeiros prudentes, pelo estímulo à poupança e pelo apoio constante às famílias e às empresas, afirmando-se como um pilar de estabilidade económica.
Além da atividade bancária, a CGD tem desempenhado um papel ativo na promoção da cultura, educação, inclusão e coesão social em Portugal. A nova sede da instituição simboliza a transição para o futuro, aliando a modernidade tecnológica e a transformação digital aos valores tradicionais de confiança e proximidade que sempre a caracterizaram.
Ao celebrar este marco histórico, a Caixa Geral de Depósitos reforça o seu compromisso contínuo como uma instituição sólida, rentável e dinâmica, focada em responder aos desafios de um mundo em constante mudança e em apoiar o futuro de Portugal.

sábado, 18 de julho de 2026

Postal Psychosociology: Quando uma Carta Não Transporta Apenas Palavras: Poder, Redes Sociais e Controlo Social numa Correspondência de 1797

Postal Psychosociology: Acervo e Ensaio — Museu de Filatelia Sérgio Pedro:...:

Por vezes, uma carta antiga parece dizer-nos muito pouco. Não tem selos, não tem carimbos raros, não ostenta belas marcas postais nem contém relatos dramáticos de batalhas ou acontecimentos extraordinários.

É precisamente o caso desta carta administrativa de 28 de março de 1797, enviada de Lisboa ao «Visconde Armeiro Mor». À primeira vista, trata-se apenas de uma requisição de 200 parelhas de bestas muares destinadas à artilharia e aos transportes do Exército português. No entanto, quando observada através da lente da História Postal Social e da Psicossociologia Postal, transforma-se num documento de enorme riqueza histórica. 

O sobrescrito preservado mostra claramente o destinatário e um resumo manuscrito do assunto.

O interior conserva a comunicação original emitida em Lisboa a 28 de março de 1797.

Muito Mais do Que Muares

O documento informa que a Coroa determinou a reunião urgente de 200 parelhas de bestas muares para o serviço da artilharia e dos transportes militares. O responsável pela operação declara ter sido encarregado pela Secretaria de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Guerra e encontra-se autorizado a compelir proprietários que recusassem vender os animais.

Para um leitor contemporâneo, a questão pode parecer banal: o Estado precisava de animais de transporte e procurava adquiri-los.

Mas a verdadeira importância da peça não reside nos muares.

Reside nas relações sociais que ela revela.

A Carta Como Instrumento de Poder

A Psicossociologia Postal parte de uma ideia simples: a correspondência não transporta apenas informação. Transporta autoridade, normas sociais, relações de poder, obrigações e formas de organização da sociedade.

Nesta carta observamos uma cadeia de comunicação muito clara:

Coroa → Secretaria de Estado → agente administrativo → Visconde Armeiro-Mor → proprietários particulares → Arsenal Real do Exército.

Cada interveniente ocupa uma posição específica numa rede de comunicação institucional.

A carta funciona como um mecanismo de coordenação dessa rede.

Sem ela, a ordem régia dificilmente chegaria aos proprietários dos animais necessários ao esforço militar.

A Força da Autoridade Sem Violência Direta

Um dos aspetos mais interessantes do documento encontra-se na expressão:

"authorizando-me para compelir os Proprietarios q' voluntariam.te naõ quizerem vendelas"

O texto é revelador.

O remetente começa por solicitar colaboração.

Apela à boa vontade do destinatário.

Invoca o serviço do rei.

Mas, simultaneamente, recorda que existe autoridade legal para obrigar os proprietários a vender os animais.

É um excelente exemplo de comunicação administrativa do Antigo Regime: a persuasão e a coação coexistem no mesmo documento.

A correspondência funciona, assim, como um instrumento de controlo social legitimado pela autoridade do Estado.

Redes Sociais Antes dos Smartphones

Hoje associamos redes sociais à internet.

Contudo, todas as sociedades possuem redes sociais.

Em 1797, essas redes eram construídas por cartas, relações pessoais, cargos administrativos, laços de dependência e estruturas de autoridade.

Esta peça mostra precisamente isso.

O rei não comunica diretamente com os proprietários dos animais.

A mensagem percorre vários níveis hierárquicos.

Cada interveniente desempenha uma função específica na transmissão da ordem.

A carta é, simultaneamente:

  • um documento administrativo;
  • um instrumento de comunicação;
  • um nó de uma rede social;
  • um mecanismo de coordenação logística;
  • uma evidência material do funcionamento do Estado.

O Estado e a Sociedade

Outro elemento particularmente interessante é o facto de a carta prever pagamento pela Coroa.

Não estamos perante uma simples apreensão arbitrária de bens.

O documento revela uma negociação entre interesse público e propriedade privada.

Por um lado, o Estado reconhece o valor económico dos animais.

Por outro, reserva-se o direito de impor a sua aquisição em caso de necessidade militar.

A carta permite observar, em poucos parágrafos, a forma como o Estado português de finais do século XVIII geria recursos, exercia autoridade e mobilizava a sociedade.

Uma Janela para a Vida Quotidiana do Poder

Muitas vezes, a História Militar é contada através de batalhas, generais e campanhas.

Esta carta recorda-nos que nenhuma guerra se faz apenas com soldados.

É necessário transportar canhões, munições, alimentos, ferramentas e equipamentos.

Tudo isso dependia de milhares de animais de tração.

Por trás de cada operação militar existia uma vasta rede de funcionários, proprietários, mensageiros, aristocratas e administradores.

Esta correspondência permite observar precisamente esse mundo invisível.

Porque É Importante para a Filatelia Social?

Do ponto de vista da Filatelia Social, esta peça é particularmente valiosa porque documenta comportamentos coletivos e mecanismos de organização da sociedade.

A carta não fala de indivíduos isolados.

Fala de:

  • autoridade;
  • administração;
  • cooperação;
  • obrigação;
  • mobilização económica;
  • circulação da informação;
  • controlo social;
  • comunicação institucional.

É por isso que, mesmo sem selos ou marcas postais raras, esta correspondência possui um enorme valor histórico.

Mais do que uma simples carta administrativa, constitui um retrato das formas através das quais a sociedade portuguesa se organizava, comunicava e respondia às exigências do Estado no final do século XVIII.

No fundo, esta peça recorda-nos uma das ideias centrais da Psicossociologia Postal: cada documento postal é também um documento sobre relações humanas.

Acervo e Ensaio — Museu de Filatelia Sérgio Pedro: Fragmentos de História: Um envelope filatélico para Luís Manuel Barata das Neves

Acervo e Ensaio — Museu de Filatelia Sérgio Pedro: Sobrescrito do Centro Universitário do Porto para ...:

Este envelope constitui um interessante testemunho das práticas filatélicas portuguesas da segunda metade do século XX. Endereçado para a Rua da Trindade, n.º 5 – 1.º Dt.º, em Lisboa, apresenta um carimbo institucional do Centro Universitário do Porto e um carimbo comemorativo ilustrado da Escola Industrial do Porto, tendo como motivo iconográfico a efígie do Infante D. Henrique. O selo utilizado corresponde à emissão portuguesa de D. Dinis no valor de $50, encontrando-se obliterado pela marca comemorativa.

O elemento de maior interesse da peça é precisamente o carimbo comemorativo de 06-11-1972, associado à Escola Industrial do Porto. A boa qualidade de impressão e a escolha do destinatário sugerem uma intenção de preservação documental e colecionística, prática A sua identificação confere interesse adicional à peça, que testemunha as ligações existentes entre instituições culturais, colecionadores e divulgadores da filatelia portuguesa durante a segunda metade do século XX.

A observação física do envelope revela ainda um aspeto particularmente relevante: a aba de fecho aparenta nunca ter sido utilizada, não existindo evidência material clara de transporte postal efetivo. Na ausência de marcas complementares de trânsito ou chegada, a circulação postal não pode ser considerada documentalmente comprovada. Estes elementos apontam para uma peça preparada com finalidade filatélica, destinada a conservar o carimbo comemorativo em excelentes condições.

O destinatário, Luís Manuel Barata das Neves, desenvolveu atividade como comerciante, editor e divulgador filatélico. A sua identificação confere interesse adicional à peça, que testemunha as ligações existentes entre instituições culturais, colecionadores e divulgadores da filatelia portuguesa durante a segunda metade do século XX. A relevância de Barata das Neves para a filatelia portuguesa encontra-se documentada em diversas publicações, apresentadas nas páginas seguintes.

 


quinta-feira, 16 de julho de 2026

Um pequeno relevo, uma grande história: o Papel Selado do Crédito Público em 1838

Selo fiscal em relevo de 20 réis do Crédito Público, impresso no topo de um documento português datado de 1838. O selo apresenta a efígie de D. Maria II de perfil, rodeada pela legenda “MARIA II R. PORTUG.” e por ornamentação vegetal em relevo. Na parte inferior lê-se “CRÉDITO PÚBLICO”, integrado num manuscrito administrativo do século XIX.

Entre os inúmeros documentos manuscritos do século XIX que chegaram aos nossos dias, há pormenores que passam facilmente despercebidos. Um deles é o selo em relevo colocado no topo da folha, conhecido como papel selado, elemento essencial para a validade de muitos actos administrativos e jurídicos da época.

O documento aqui apresentado, datado de 31 de Janeiro de 1838, no Paço do Concelho de Montemor, é um excelente exemplo de utilização de papel selado do Crédito Público, emitido durante o reinado de D. Maria II. A própria documentação da Junta do Crédito Público confirma a existência, nesta época, de papel selado com os valores de 10, 20 e 40 réis. 

O que observamos no selo?

O elemento mais marcante é o chamado selo albino, isto é, um selo impresso em relevo seco, sem tinta.

No exemplar observa-se:”;

  • o valor fiscal de 20 réis;
  • a designação“CRÉDITO PÚBLICO”;
  • A efígie de D. Maria II;
  • uma elaborada decoração vegetal também gravada em relevo.

Esta técnica tinha uma dupla função: certificar o pagamento do imposto e dificultar a falsificação do documento.

A efígie de D. Maria II

Um dos pormenores mais interessantes deste selo fiscal encontra-se no medalhão central. A ampliação do relevo permite identificar a efígie de D. Maria II, representada de perfil e envolvida pela legenda «MARIA II R. DE PORTUG». Esta referência à soberana reinante confere ao selo um significado que ultrapassa a mera função tributária. O papel selado era simultaneamente um instrumento fiscal e uma manifestação da autoridade do Estado liberal português, legitimada pela Coroa.

Num documento datado de 1838, a presença da efígie de D. Maria II constitui também um importante elemento de contextualização histórica, transportando-nos para os primeiros anos da consolidação do regime liberal após a Guerra Civil.


O que era o papel selado?

O papel selado correspondia a uma forma de tributação documental. Certos actos só podiam produzir efeitos legais quando redigidos em folhas previamente adquiridas ao Estado e já portadoras do selo fiscal.

Requerimentos, escrituras, procurações, contratos, certidões e processos judiciais eram apenas alguns exemplos de documentos sujeitos a esta obrigação. Sem papel selado, muitos desses actos eram considerados inválidos perante a administração e os tribunais. 


Porque surge a expressão “Crédito Público”?

Um aspecto particularmente interessante neste exemplar é a referência ao Crédito Público.

No início do século XIX, o Estado português procurava reorganizar as suas finanças e assegurar os recursos necessários para fazer face às suas responsabilidades financeiras. Parte das receitas provenientes do papel selado encontrava-se associada ao sistema do Crédito Público, organismo responsável pela administração da dívida do Estado. 

Por isso, embora o texto do documento trate de uma questão administrativa local, a própria folha revela uma ligação directa ao sistema fiscal e financeiro do Reino.

Um testemunho da sociedade portuguesa de Oitocentos

O interesse deste documento não se limita ao selo.

O requerente identifica-se como José Ferreira Bexiga, Professor das Primeiras Letras da Vila de Canha, o que confere ao manuscrito um interesse adicional para a história da educação e da administração local.

Encontramos assim, numa única peça documental:

  • um testemunho da fiscalidade portuguesa;
  • um exemplo de papel selado do Crédito Público;
  • um documento produzido numa câmara municipal;
  • uma referência a um professor de ensino primário em 1838.

O que procuram os coleccionadores?

Para os estudiosos dos papéis de valor e da história postal-fiscal, elementos como este merecem atenção especial.

Os aspectos mais relevantes são:

  • o valor facial do selo;
  • o tipo de relevo;
  • a iconografia do escudo;
  • as inscrições fiscais;
  • a data de utilização;
  • as eventuais marcas de água do papel.

Sabe-se que muitos papéis selados deste período apresentam marcas de água com referências ao Crédito Público e à fábrica de papel da Louzã, elementos fundamentais para o seu estudo e classificação.

Mais do que um simples carimbo

À primeira vista, o relevo de 20 réis poderá parecer um simples requisito burocrático. No entanto, para o coleccionador atento, representa muito mais: um testemunho das finanças públicas, da organização administrativa do Estado liberal e da vida quotidiana dos portugueses há quase dois séculos.

É precisamente este o encanto do coleccionismo documental: descobrir que, por detrás de um discreto selo em relevo, se esconde uma história rica e multifacetada, capaz de nos transportar directamente para o Portugal de 1838.


segunda-feira, 13 de julho de 2026

MFP - Museu de Filatelia de Portugal: Ecos de um Mundo Diferente: Uma viagem geopolítica através do Álbum Richard


Álbum Richard (6.ª edição): uma cápsula do tempo do mundo no final do século XIX

O colecionismo filatélico sempre foi mais do que a simples acumulação de selos. Desde os seus primórdios, constituiu também uma forma de conhecer o mundo, as suas geografias, os seus governantes e os símbolos que representavam os diferentes povos. Entre os testemunhos mais fascinantes dessa época destaca-se o Álbum Richard (6.ª edição), uma obra que hoje pode ser lida como uma verdadeira cápsula do tempo do final do século XIX.

À primeira vista, o álbum apresenta-se como um instrumento destinado à organização de coleções de selos. Contudo, uma observação atenta revela algo muito mais profundo: trata-se de um compêndio enciclopédico que procurava ensinar ao jovem colecionador como o mundo estava organizado, quem o governava e quais eram os valores considerados centrais na civilização industrial da época.

Um mundo hierarquizado segundo a geopolítica oitocentista

A estrutura do Álbum Richard espelha claramente a visão geopolítica dominante no final de Oitocentos. Os grandes impérios europeus ocupam lugar de destaque, refletindo o equilíbrio internacional de poder vigente.

O Império Alemão, o Império Austro-Húngaro e o Império Russo surgem ao lado de monarquias consolidadas como o Reino Unido e Portugal, formando aquilo que o observador contemporâneo reconhece como o núcleo das grandes potências da época.

Particularmente reveladora é a forma como o álbum integra territórios dependentes e protetorados coloniais. Estados principescos da Índia, como Hyderabad ou Sirmur, aparecem identificados sob proteção britânica, enquanto a Tunísia surge associada à esfera de influência francesa. Estas classificações não são neutras: refletem uma visão do mundo fortemente marcada pelo colonialismo europeu e pela expansão imperial.

A própria terminologia utilizada transmite uma preocupação em distinguir os diversos sistemas políticos. Assim, encontramos referências a Repúblicas, Reinos, Impérios e Principados, explicitando a diversidade institucional existente no planeta e reforçando uma perspetiva comparativa da organização dos Estados.

A estética visual de uma época

O Álbum Richard é igualmente um extraordinário documento da cultura visual do século XIX.

Cada secção nacional é acompanhada por retratos finamente gravados dos respetivos chefes de Estado. Figuras como a Rainha Vitória do Reino Unido ou o Imperador Mutsuhito do Japão não desempenham apenas uma função identificativa. Os seus retratos servem igualmente para exaltar a imagem do soberano, reforçando a ideia de autoridade, estabilidade e prestígio nacional.

A heráldica ocupa também um lugar central. Brasões, insígnias dinásticas e símbolos nacionais multiplicam-se ao longo das páginas, funcionando como elementos de identificação política e cultural. O monograma imperial otomano (tuğra), os brasões dos Estados germânicos ou as armas das diferentes monarquias europeias evidenciam a importância simbólica atribuída à representação do poder.

A própria capa do álbum representa um manifesto visual dos ideais de progresso da época. Figuras alegóricas, frequentemente associadas à ciência e à comunicação, coexistem com símbolos da revolução industrial, como locomotivas e navios a vapor. Estes elementos traduzem a crença num mundo em acelerada transformação, impulsionado pela tecnologia e pelas ligações internacionais.

Ciência, modernização e progresso

O final do século XIX foi marcado por um forte otimismo relativamente à ciência e ao progresso material, e esse espírito encontra-se refletido nas páginas do álbum.

Um dos exemplos mais interessantes é o destaque concedido ao Príncipe Alberto I do Mónaco, cuja atividade científica no domínio da oceanografia lhe granjeou reconhecimento internacional. A sua presença demonstra que o álbum valorizava não apenas o estatuto político dos governantes, mas também o seu contributo para o avanço do conhecimento.

Diversas entradas fazem igualmente referência aos processos de modernização que transformavam várias regiões do globo. O Japão da Era Meiji, o Sião sob Chulalongkorn ou a Pérsia são apresentados como exemplos de sociedades empenhadas na reforma administrativa, no desenvolvimento das infraestruturas e na adaptação aos novos tempos.

Para o leitor do século XIX, estes apontamentos constituíam uma verdadeira pedagogia do progresso, associando a emissão de selos à construção de Estados modernos e eficientes.

Uma enciclopédia portátil do mundo

Uma das características mais notáveis do Álbum Richard reside na quantidade de informação factual que acompanha cada país.

Muito para além dos espaços reservados aos selos, o utilizador encontrava dados sobre moeda, sistema político, governantes e outras informações de natureza enciclopédica.

O sistema monetário é particularmente valorizado. Em Portugal, por exemplo, é explicado que 1000 réis equivalem a 1 mil-réis, enquanto outros países apresentam sistemas monetários mais complexos, cuidadosamente descritos para facilitar a compreensão dos colecionadores.

As biografias dos soberanos incluem datas de nascimento, de ascensão ao trono e outros elementos cronológicos que conferem rigor documental à publicação. Esta acumulação de dados reflete o gosto oitocentista pela classificação, pela catalogação e pela sistematização do conhecimento.

Filatelia e redes globais de comunicação

Embora seja um álbum de selos, o seu significado transcende largamente a dimensão filatélica.

Cada país é apresentado através das suas emissões postais, que funcionam como símbolos tangíveis da soberania e da identidade nacional. O álbum recorda marcos históricos como o Penny Black, a primeira emissão postal do mundo, e valoriza as primeiras emissões de territórios então considerados exóticos para o colecionador europeu, como o Afeganistão ou a Caxemira.

Ao mesmo tempo, a obra testemunha a crescente interligação internacional proporcionada pelas redes postais. Num período em que as comunicações conheciam um desenvolvimento sem precedentes, o selo tornava-se um pequeno emissário cultural, transportando imagens, símbolos e valores entre diferentes continentes.

O álbum funcionava, assim, como um guia para compreender a rede mundial de correspondência que estava a transformar as relações entre povos, governos e mercados.

Muito mais do que um álbum

Vista à distância de mais de um século, a 6.ª edição do Álbum Richard é um extraordinário documento histórico. Não se limita a catalogar selos; oferece uma representação organizada do mundo tal como era percecionado por uma parte significativa da sociedade europeia do final do século XIX.

Através das suas páginas observamos a geopolítica dos impérios, a estética da representação do poder, a fé no progresso científico, a vontade de reunir conhecimento enciclopédico e a expansão das comunicações globais.

Por isso, o Álbum Richard deve ser entendido não apenas como um instrumento de colecionismo, mas como um espelho da mentalidade do seu tempo. Num único volume coexistem filatelia, geografia, política, ciência, história e cultura visual. É precisamente essa riqueza interdisciplinar que o transforma numa autêntica cápsula do tempo, permitindo ao colecionador contemporâneo viajar até ao mundo que os seus primeiros utilizadores procuravam descobrir através dos selos.

👉 A ficha de catálogo, com a análise técnica e histórica detalhada, encontra-se publicado no Acervo & Ensaio, órgão de estudo do Museu de Filatelia Sérgio Pedro, onde o documento foi integrado no corpus de investigação do museu


sábado, 11 de julho de 2026

Quando a filatelia promovia a própria filatelia: a vinheta da III FLAVEX (Porto, 1950)


No universo do colecionismo, existem peças cuja importância não reside na raridade intrínseca, mas na capacidade de documentar a vida associativa e cultural da própria filatelia. A III FLAVEX – Exposição Filatélica Artístico-Humorística, realizada no Porto em 21 de janeiro de 1950, constitui um desses casos.

Recentemente chegaram ao acervo do Museu de Filatelia Sérgio Pedro dois testemunhos diretamente relacionados com este evento: uma vinheta comemorativa e um postal ilustrado circulado. Em conjunto, estas peças permitem observar como a filatelia procurava divulgar-se a si própria numa época em que os clubes, exposições e encontros filatélicos desempenhavam um papel central na formação dos colecionadores.

Uma exposição para celebrar a filatelia

A designação do certame merece atenção:

III FLAVEX – Exposição Filatélica Artístico-Humorística

A combinação dos conceitos filatélica, artística e humorística revela uma iniciativa com uma forte componente cultural e criativa. Embora ainda subsistam questões documentais por esclarecer, a existência de material próprio da exposição demonstra uma organização suficientemente estruturada para produzir peças promocionais específicas.

A vinheta da III FLAVEX

Entre os objetos associados ao evento encontra-se uma interessante vinheta comemorativa impressa em vermelho e preto.

A composição apresenta uma vista estilizada da cidade do Porto, onde podem ser identificados elementos característicos da paisagem urbana, nomeadamente o casario da zona histórica e uma representação da Ponte D. Luís I. A leitura de uma estrutura vertical como possível representação da Torre dos Clérigos permanece, contudo, uma hipótese interpretativa que requer confirmação.

A vinheta inclui a inscrição:

Exposição Filatélica Artístico-Humorística
Porto
Portugal
Terceira FLAVEX
Janeiro MCML

Um dos aspetos mais interessantes da peça é a identificação explícita dos seus responsáveis gráficos:

FLÁVIO INV.
T. M. SERQUEIRA IMP.

As abreviaturas seguem a tradição gráfica latina:

  • invenit (inv.), indicando o autor do desenho;
  • impressit (imp.), identificando o impressor.

Sabemos assim que o desenho foi concebido por Flávio e impresso por T. M. Serqueira, um detalhe pouco frequente em muitas vinhetas filatélicas portuguesas do período.

Quando a vinheta encontra o correio

Ainda mais revelador é o postal ilustrado produzido para a exposição.

Trata-se de um postal promocional da III FLAVEX que inclui o cabeçalho “Arte Humor” e o sugestivo convite:

“Conheça a poesia dos selos”.

O postal reproduz o poema “Pombo-Correio”, de António Correia d'Oliveira, evidenciando a tentativa de aproximar a filatelia da literatura e da cultura popular.

Mas o elemento verdadeiramente notável encontra-se no percurso postal da peça.

O postal foi expedido no Porto em 21 de janeiro de 1950, data coincidente com a realização da exposição, e chegou a Lisboa no dia seguinte, conforme comprova o datador mecânico de 22 de janeiro de 1950.

O percurso documentalmente comprovado é:

Porto (21.01.1950) → Lisboa (22.01.1950)

Uma peça com múltiplas camadas de interesse

O postal reúne vários elementos que, isoladamente, já despertariam interesse:

  • selo da emissão Caravela Portuguesa de 50 centavos;
  • carimbo comemorativo da III FLAVEX;
  • circulação postal efetiva;
  • aplicação de uma vinheta da exposição;
  • obliteração complementar da própria vinheta.

Em conjunto, estes elementos constituem um excelente exemplo de correspondência preparada no contexto de uma exposição filatélica, mas que cumpriu simultaneamente uma função postal real.

Particularmente interessante é a dupla ação obliteradora observável no selo:

  1. aplicação do carimbo comemorativo da exposição;
  2. posterior tratamento por máquina obliteradora em Lisboa.

Esta sequência documenta o percurso efetivo da peça após a sua passagem pelo evento.

Um destinatário de relevo na filatelia portuguesa

O postal foi endereçado ao:

Ex.mo Sr. Brigadeiro José da Cunha Lamas
Estrada de Benfica, 574
Vila Ventura, 1.º D.
Lisboa

A investigação conduzida até ao momento aponta para a identificação do destinatário como o Brigadeiro José da Cunha Lamas (1889–1975), militar, investigador e figura destacada da filatelia portuguesa.

Embora a correspondência entre o destinatário do postal e o filatelista seja altamente plausível, esta identificação deve continuar a ser tratada como hipótese documental em processo de validação, até à reunião de elementos complementares que permitam estabelecer a associação de forma definitiva.

Mais do que simples curiosidades

A vinheta e o postal da III FLAVEX recordam-nos que a história da filatelia não se faz apenas através dos selos emitidos pelos correios.

Faz-se também através de exposições, clubes, encontros, publicações, vinhetas, carimbos comemorativos e toda uma cultura material produzida pelos próprios colecionadores.

Setenta e cinco anos depois, estas peças continuam a cumprir a sua função original: promover a filatelia. A diferença é que hoje já não anunciam uma exposição futura. Documentam um passado que importa preservar, estudar e compreender.

São, afinal, verdadeiros ecos do tempo.


👉 A ficha de catálogo, com a análise técnica e histórica detalhada, encontra-se publicado no Acervo & Ensaio, órgão de estudo do Museu de Filatelia Sérgio Pedro, onde o documento foi integrado no corpus de investigação do museu

terça-feira, 7 de julho de 2026

"Um Mendigo" de Lagos: a pobreza como tema postal no Algarve do início do século XX


Nas primeiras décadas do século XX, os bilhetes-postais ilustrados não se limitavam à divulgação de monumentos, ruas ou paisagens. Muitos editores e fotógrafos procuravam representar aquilo que consideravam característico de cada localidade através dos chamados “tipos populares”, figuras humanas frequentemente associadas às identidades e imaginários regionais.

É neste contexto que se insere o bilhete-postal “66 – Lagos – Um Mendigo”, produzido a partir de uma fotografia de António Crisógono dos Santos e impresso em oficina belga no início do século XX. Embora possa ser entendido como uma representação de um “tipo popular”, a própria designação de “mendigo” remete igualmente para uma condição social específica, convidando a uma leitura que ultrapassa a simples dimensão pitoresca ou etnográfica da imagem.

No contexto de uma sociedade marcada por significativas desigualdades económicas e sociais, a fotografia constitui um interessante testemunho visual de realidades humanas pouco documentadas por outras fontes. A sua posterior circulação em formato postal sugere o interesse que estas representações suscitavam junto do público da época, ao mesmo tempo que evidencia os processos de seleção e construção visual através dos quais determinadas figuras eram transformadas em símbolos locais.

O retratado surge apresentado com uma presença marcante. Elementos como o chapéu de abas largas, o cajado, a samarra e o vestuário remendado contribuem para a caracterização da figura e fornecem indícios sobre o contexto material em que a imagem foi produzida. Mais do que um retrato individual, a fotografia pode ser interpretada como um documento visual que permite refletir sobre aspetos da vida quotidiana e da estratificação social no Algarve de então.

Sob a perspetiva da filatelia social e psicossocial, este postal reveste-se de particular interesse, não apenas pelo seu valor iconográfico, mas também pelas questões que suscita acerca das formas de representação, circulação e receção das imagens na sociedade do início do século XX. Neste sentido, o objeto postal assume-se como uma fonte relevante para o estudo das perceções sociais, das identidades locais e da memória coletiva.

Preservado no acervo do Museu de Filatelia Sérgio Pedro, este exemplar ilustra o potencial do património postal enquanto recurso para a compreensão das múltiplas dimensões históricas, sociais e culturais presentes nos objetos de comunicação do quotidiano.

O que é um “Cliché”? O caso do enigmático «Cliché de Lavrador» num postal de Olhão

 

Entre os muitos pormenores que enriquecem o estudo dos bilhetes-postais ilustrados, poucos são tão intrigantes para o colecionador como as pequenas inscrições que acompanham as imagens. Num postal de Olhão – Quinta do Marim, editado pela Papelaria e Typographia de Paulo Guedes & Saraiva, surge uma referência que despertou a nossa atenção:

“CMXL – Cliché de Lavrador”

Mas afinal, o que significa esta indicação?

O que era um cliché?

Na linguagem gráfica e editorial do início do século XX, o termo“cliché” designava a matriz ou chapa utilizada no processo de impressão de uma imagem. Por extensão, a expressão “Cliché de...” era frequentemente utilizada pelos editores para identificar o autor da fotografia, o proprietário do negativo ou o detentor da matriz original a partir da qual a imagem era reproduzida.

A importância desta indicação é bem conhecida na cartofilia portuguesa. Diversos postais editados por Paulo Guedes & Saraiva apresentam referências semelhantes, identificando autores ou fornecedores de imagens utilizadas na produção editorial. A própria atividade da empresa assentava frequentemente na utilização de clichés obtidos junto de fotógrafos e correspondentes locais, que forneciam vistas regionais para posterior edição e distribuição nacional.

Quem era Lavrador?

É precisamente aqui que começa o mistério.

Apesar de uma pesquisa preliminar em fontes acessíveis online, não foi possível localizar uma referência biográfica segura a um fotógrafo, editor ou colaborador da cartofilia portuguesa identificado simplesmente como“Lavrador”. Até ao momento, não encontrámos qualquer estudo ou catálogo que permita atribuir uma identidade concreta a este nome. [portuguesaletra.com], [retrieverc...ortugal.pt]

Contudo, a inscrição existente no postal da Quinta do Marim constitui um elemento documental de grande interesse, pois demonstra que existia alguém designado por “Lavrador” associado à produção ou fornecimento da imagem utilizada nesta edição.

Porque é importante deixar este registo?

Muitas descobertas cartofílicas começam precisamente com pequenas observações dispersas em coleções particulares.

Ao publicar esta nota, pretendemos deixar registada a existência de um postal ilustrado de Olhão contendo a menção:

“Cliché de Lavrador”

para que futuros investigadores, colecionadores ou descendentes possam eventualmente relacionar este nome com outros exemplares, anúncios comerciais, arquivos fotográficos ou publicações da época.

O postal

O exemplar apresenta ainda outros elementos de elevado interesse:

  • a rara representação da Quinta do Marim, tema pouco frequente na cartofilia algarvia;
  • um elegante verso decorado com motivos de inspiração Arte Nova;
  • uma mensagem manuscrita de despedida, testemunhando a utilização quotidiana do postal como meio de comunicação pessoal.

Assim, um simples postal transforma-se num documento que reúne simultaneamente paisagem, design gráfico, história postal e memória humana.

Fica o desafio

Algum leitor conhece outros postais assinados ou identificados como “Cliché de Lavrador”?

Se sim, teremos todo o gosto em registar e estudar esses exemplares, contribuindo para esclarecer mais um pequeno mistério da cartofilia portuguesa.