Recentemente chegaram ao acervo do Museu de Filatelia Sérgio Pedro dois testemunhos diretamente relacionados com este evento: uma vinheta comemorativa e um postal ilustrado circulado. Em conjunto, estas peças permitem observar como a filatelia procurava divulgar-se a si própria numa época em que os clubes, exposições e encontros filatélicos desempenhavam um papel central na formação dos colecionadores.
Uma exposição para celebrar a filatelia
A designação do certame merece atenção:
III FLAVEX – Exposição Filatélica Artístico-Humorística
A combinação dos conceitos filatélica, artística e humorística revela uma iniciativa com uma forte componente cultural e criativa. Embora ainda subsistam questões documentais por esclarecer, a existência de material próprio da exposição demonstra uma organização suficientemente estruturada para produzir peças promocionais específicas.
A vinheta da III FLAVEX
Entre os objetos associados ao evento encontra-se uma interessante vinheta comemorativa impressa em vermelho e preto.
A composição apresenta uma vista estilizada da cidade do Porto, onde podem ser identificados elementos característicos da paisagem urbana, nomeadamente o casario da zona histórica e uma representação da Ponte D. Luís I. A leitura de uma estrutura vertical como possível representação da Torre dos Clérigos permanece, contudo, uma hipótese interpretativa que requer confirmação.
A vinheta inclui a inscrição:
Exposição Filatélica Artístico-HumorísticaPortoPortugalTerceira FLAVEXJaneiro MCML
Um dos aspetos mais interessantes da peça é a identificação explícita dos seus responsáveis gráficos:
FLÁVIO INV.T. M. SERQUEIRA IMP.
As abreviaturas seguem a tradição gráfica latina:
- invenit (inv.), indicando o autor do desenho;
- impressit (imp.), identificando o impressor.
Sabemos assim que o desenho foi concebido por Flávio e impresso por T. M. Serqueira, um detalhe pouco frequente em muitas vinhetas filatélicas portuguesas do período.
Quando a vinheta encontra o correio
Ainda mais revelador é o postal ilustrado produzido para a exposição.
Trata-se de um postal promocional da III FLAVEX que inclui o cabeçalho “Arte Humor” e o sugestivo convite:
“Conheça a poesia dos selos”.
O postal reproduz o poema “Pombo-Correio”, de António Correia d'Oliveira, evidenciando a tentativa de aproximar a filatelia da literatura e da cultura popular.
Mas o elemento verdadeiramente notável encontra-se no percurso postal da peça.
O postal foi expedido no Porto em 21 de janeiro de 1950, data coincidente com a realização da exposição, e chegou a Lisboa no dia seguinte, conforme comprova o datador mecânico de 22 de janeiro de 1950.
O percurso documentalmente comprovado é:
Porto (21.01.1950) → Lisboa (22.01.1950)
Uma peça com múltiplas camadas de interesse
O postal reúne vários elementos que, isoladamente, já despertariam interesse:
- selo da emissão Caravela Portuguesa de 50 centavos;
- carimbo comemorativo da III FLAVEX;
- circulação postal efetiva;
- aplicação de uma vinheta da exposição;
- obliteração complementar da própria vinheta.
Em conjunto, estes elementos constituem um excelente exemplo de correspondência preparada no contexto de uma exposição filatélica, mas que cumpriu simultaneamente uma função postal real.
Particularmente interessante é a dupla ação obliteradora observável no selo:
- aplicação do carimbo comemorativo da exposição;
- posterior tratamento por máquina obliteradora em Lisboa.
Esta sequência documenta o percurso efetivo da peça após a sua passagem pelo evento.
Um destinatário de relevo na filatelia portuguesa
O postal foi endereçado ao:
Ex.mo Sr. Brigadeiro José da Cunha LamasEstrada de Benfica, 574Vila Ventura, 1.º D.Lisboa
A investigação conduzida até ao momento aponta para a identificação do destinatário como o Brigadeiro José da Cunha Lamas (1889–1975), militar, investigador e figura destacada da filatelia portuguesa.
Embora a correspondência entre o destinatário do postal e o filatelista seja altamente plausível, esta identificação deve continuar a ser tratada como hipótese documental em processo de validação, até à reunião de elementos complementares que permitam estabelecer a associação de forma definitiva.
Mais do que simples curiosidades
A vinheta e o postal da III FLAVEX recordam-nos que a história da filatelia não se faz apenas através dos selos emitidos pelos correios.
Faz-se também através de exposições, clubes, encontros, publicações, vinhetas, carimbos comemorativos e toda uma cultura material produzida pelos próprios colecionadores.
Setenta e cinco anos depois, estas peças continuam a cumprir a sua função original: promover a filatelia. A diferença é que hoje já não anunciam uma exposição futura. Documentam um passado que importa preservar, estudar e compreender.
São, afinal, verdadeiros ecos do tempo.
👉 A ficha de catálogo, com a análise técnica e histórica detalhada, encontra-se publicado no Acervo & Ensaio, órgão de estudo do Museu de Filatelia Sérgio Pedro, onde o documento foi integrado no corpus de investigação do museu

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